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Alceu Amaral - Literatura e Cultura

Alceu Amaral - Literatura e Cultura

Alceu Amaral da Silva é natural de Pelotas-RS, formado em Letras. Professor, Pós-graduando em Educação de Jovens e Adultos pela FURG. Funcionário público, escritor amador, ativista Cultural. Administrador do Festival Rock e Poesia em Camaquã, Coautor do Livro Eclipses e Elipses e Destilando Poesias e contos no Blog Mouroblog.com .

Polarização, um Brasil não tão novo

14/05/2020 - 08h32min Alceu Amaral / Foto: Reprodução
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O Brasil agora é um país dividido. Quem já não ouviu tal frase de impacto. Mas devo divergir no que tange ao advérbio “agora”. Pois esta localização temporal não vem de agora, e a história cultural do nosso país corrobora com minha divergência.

O ano era 1974 e um grupo de Rock ousa desafiar, sem querer é claro, o poderio de vendas em discos do líder até então, Roberto Carlos.

Mas o que é Secos e Molhados, o conjunto que vendeu 800 mil cópias do LP de lançamento (para que sirva de comparação, Roberto Carlos, o maior vendedor de discos do país, vende cerca de 500 mil cópias de cada LP que grava), que lotou o Maracanãzinho, que lotou o teatro Treze de Maio durante 70 apresentações, que fez 6 mil pessoas disputarem os 700 lugares do Teatro Teresa Raquel no seu primeiro dia de apresentação no Rio, que gravou programas para a televisão mexicana, que vendeu discos pela América Latina afora, que absolutamente encantou a toda-poderosa Rede Globo de Televisão, que fez milhares de pessoas cantarem os versos cheios de insinuações de “O Vira”, que dominou as paradas de sucesso durante seis meses, sem parar?

Em uma formação tão típica e descompromissada quanto a do próprio Rock a banda tinha em sua gênese tudo que as liberdades juvenis carregam até hoje. Salve Elvis!

Secos e Molhados começou como um projeto de João Ricardo, um músico português radicado no Brasil. Em São Paulo, João se juntou ao vizinho, Gerson Conrad, e depois conheceu Ney Matogrosso, um cantor que trabalhava em teatro e, para ajudar na renda, vendia artesanato, ouvi alguém falar em hippie?

Sim o caldo engrossa porque do outro lado temos o fiel representante de um Brasil tradicional e família, doce romântico, branco e bem vestido. E sua onipresença se faz até a contemporaneidade marcando espaço nos fins de ano. O jovem rapaz galante e bom moço, porta voz do que temos de mais proverbial em nossa sociedade tropical.

Sim, Roberto Carlos.

Ele foi condecorado com a Medalha do Pacificador, ocupou cargos em conselhos do governo, livrou-se da censura com a ajuda do ministro da Justiça e foi contratado pelo Exército para atuar em inúmeros shows em homenagem à “Revolução”.

Agraciado com o amém da ditadura, Roberto Carlos tinha na época boate, postos de gasolina e uma locadora de automóveis além de um desejo, a mosca branca, uma rádio.

O que leva a alimentar esta visão de que servir ao rei o tornaria “Rei”, também lhe reservou a face mais obscura desta polarização. Pois estes dados só viram a luz, anos depois. As representações que gostam da manutenção do status quo sempre precisam de um herói para lhe representar perante as massas, e RC era a figura ideal. Tudo isso sem desmerecer seu valor de croner e bom intérprete, é claro.

Do outro lado, a androgenia em voga nos anos 70 tinha um representante que gritava um desejo de liberdade e uma vontade de concatenação com tudo que se fazia e vivia no mundo, Ney Matogrosso era porta-voz de uma arte nova e que desnudava um cotidiano metafórico em nome de uma ruptura justamente com o outro lado desta moeda chamada Brasil.

“Rompi tratados, traí os ritos Quebrei a lança, lancei no espaço Um grito, um desabafo”.

Já Robertão : Se você me diz que vai sair/Sozinha eu não deixo você ir/Entenda que o meu coração /Tem amor demais meu bem e essa é a razão/Do meu ciúme, ciúme de você Destila o sumo da possessão masculina já em 1968 em ciúme de você. Ainda na atualidade, valores como o machismo são perenes nas letras do bardo da normalidade, Roberto Carlos: "O cara que pega você pelo braço/ Esbarra em quem for que interrompa seus passos/ Está do seu lado pro que der e vier/ O herói esperado por toda mulher".

Do outro lado: “Não há possibilidade/De viver com essa gente/E nem com nenhuma gente.”

O pronome indefinido “essa” se refere a qual gente na letra de O HIEROFANTE? A indefinição no uso da língua era artifício recorrente aos artistas da época para protestar contra a ditadura e seus mecanismos de perpetuação, logo o contraponto é latente. O nome Secos e Molhados, “um nome que não determina coisa alguma, que se abre para todos os gêneros” Serve de bastião de uma nova visão que erroneamente se relacionou com bagunça ou anarquia, mas antes de tudo foi a vontade do Brasil de se libertar do cerceamento, do atraso de uma época a sombra da hipocrisia.

Hoje vemos a estratificação deste sentimento nos diálogos sociais, entre direita e esquerda , família tradicional brasileira a alcunha que estes escolhem para chamar o que não lhe é confortável.

Nas brigas acirradas entre contrários, vemos a divisão entre os estúpidos e os sábios quietos, entre o novo e o retrógrado, entre o religioso e o espiritual, o cochinha e o ladrão, o patriota e o comunista.

De antemão, solto o verbo para dizer que cercar um consciente coletivo continental como o Brasil de fórmulas simples é um erro, e não olhar para os reflexos sociais marcados a ferro e fogo em nossa cultura é uma temeridade.

Com esta reflexão memorável, fica claro que o Brasil já vem dividindo sua alma há muito tempo e esconder o fato que quem comprava um disco dos Secos e Molhados ou de Roberto Carlos estava comprando antes de tudo uma ideia e escolhendo um lado no antagonismo cultural. Sendo assim um reflexo vivo de nossa sociedade repleta de hipocrisias e medos, mas também rodeada de uma vontade resistente de mudanças. 

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