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Crônicas de Rodrigo Bender Dorneles

Crônicas de Rodrigo Bender Dorneles

Rodrigo Bender Dorneles é Bacharel em Administração. Ele trabalhou no agronegócio da família, e na CESA, Camaquã (RS). Hoje, trabalha terceirizando o setor de vendas para duas empresas de consultoria. Filosofo de final de semana. Amante de história, sociologia e filosofia.
Iniciou curso de escrita de crônicas em Porto Alegre, cidade onde mora hoje.

Quando Narciso acorda sorrindo

29/04/2021 - 15h43min Rodrigo Bender Dorneles / Foto: Divulgação

Descubra como dinamizar suas redes sociais, e alavancar mais seguidores e curtidas.

Nesta crônica você conhecera métodos comprovados, para crescer socialmente.

Narciso, no mito grego, só tinha sua imagem refletida na água para se auto admirar, curtidas são bem mais eficazes para massagear seu ego.

Este seria o início de uma crônica que chamaria a atenção do público atual.

O ignóbil leitor, seria logo persuadido pelas primeiras palavras, e talvez, não entende-se a ironia fina da frase mencionando Narciso.

Crônicas de conteúdo não geram benefícios diretos, porém, mensagens de autoajuda e curtidas online produzem doses consideráveis de dopaminas.

Narciso foi um personagem da mitologia grega politeísta. Os Gregos costumavam explicar a maioria dos fatos capciosos da natureza e da vida por histórias altamente criativas e com todo um significado metafórico.

No Mito em questão o personagem Narciso que deu origem ao termo Narcisismo ficou apaixonado pelo próprio reflexo de sua imagem na água de um rio, um amor pela própria beleza e uma autoestima quase que patológica são as lições inteligíveis desta alegoria.

Hoje narcisistas ou não, vivemos atrás de nossas imagens em espelhos, fotos e principalmente selfs.

A atual sociedade de consumo diz: Me consuma. O capitalismo cria problemas e necessidades que podem ser supridas por compras ou transações monetárias, todas estas necessidades partem de uma premissa autocentrada quase que narcisista, comprar para satisfazer o ego.

Dessa forma, é como, se hoje, nós mesmos também nos tornássemos produtos a serem comprados, criando a partir de nossa autoimagem, uma marca própria.

É como se precisássemos vender nossas ideias, nossa posição e afazeres, nossos hobbies, e principalmente nossa felicidade.

Hoje as relações se baseiam em estereótipos formatados por nós mesmos e expostos nas redes sociais. É como se as pessoas que se relacionam conosco nos comprasse para nós fazermos parte da vida delas.

Somos como marcas, precisamos sorrir em público e nos vender para depois sorrir em casa.

Logo as curtidas nas redes sociais parecem quase que ter valor em moeda, e os comentários moedas estrangeiras em alta valorização.

Cito outro mito, do filósofo dualista Platão. Platão propôs a distinção dualística entre o mundo real e o mundo das ideias. Dessa forma, propôs humanos vivendo em cavernas tendo contato apenas com a realidade exterior através das sombras que se projetavam.

Platão quase que prevendo o mundo atual teorizou sobre algo bem factível na atualidade, hoje o mundo real e o mundo da internet se confundem, o mundo da internet seria como as sombras refletidas. E a realidade de fato a caverna individual na suprimida existência física atual propiciada pela pandemia.

Mitos na antiguidade eram metafóricos e proporcionavam entendimentos em alegorias simples de coisas altamente complexas.

O mito da caverna não explica apenas a existência humana cotidiana ou a existência como um todo, mas explica as relações sociais inclusive políticas.

Se torna triste e quase uma heresia, usar o termo em questão para falar ou nomear um certo político que obviamente projetou imagens através da internet e fake news para o vermos de tal modo.

A internet seria o combustível para projetar imagens nas cavernas de outras pessoas, elas podem ser reais, mas a demagogia se potencializa neste tipo de construção.

Enfim, vivemos todos em nossas cavernas. As imagens refletidas na qual vemos e entendemos o mundo exterior são baseadas em status, construídos pelo mundo online.

Achamos que conhecemos a caverna das outras pessoas, porém, estamos confusos buscando a felicidade postergada. A felicidade no reconhecimento, uma felicidade infantil.

Precisamos mandar sombras para serem refletidas em outras cavernas, dizendo: Olha como sou feliz, adoro meu trabalho, tenho uma família perfeita.

Todos os outros olhando as sombras de suas cavernas perplexos, pensando: Preciso mandar uma imagem ou sombra mais destacada.

Esquecemos que o fim da felicidade é ela mesma, O benefício da felicidade é intrínseco.

Nossa sociedade atual confunde a ordem das coisas.

Precisamos de milhões de fotos. O importante não é o evento: casamento, festa de aniversário, formatura, bodas. E sim seu benefício posterior. E sim tomar vinho vendo as fotos e melhores ângulos.

O celular quase que como o instrumento desse mundo passa a ser como um vício, sem nicotina ou substâncias tóxicas, mas com alto poder de dependência psicológica.

Assim seguimos no nosso cotidiano, a vida sendo marcada, e vamos amadurecendo neste mundo um tanto quanto assustador. A competição nos corrompe, a internet nos torna parecidos, nossas cavernas ficam empoeiradas, mas nossas fotos ainda nos auxiliam. O externo sempre parece ser melhor, e Narciso viveria completamente saudável se fosse transportado da Grécia antiga para o mundo atual.

A vida passa os anos passam e nossas marcas já não valem muito. Ficamos perdidos. O sistema já não nos diz mais o que fazer ou curtir ou comprar.

Terminamos, mais velhos, com nosso reflexo no espelho pela manhã, assim como Narciso, porém, enrugados e com traços maltratados pela velhice.

Por um momento pensamos sobre a vida, sobre o que deixamos de fazer ou fizemos.

Olhando para o espelho nos assustamos e nos perguntamos sem resposta.

Aonde estão agora as curtidas para massagear meu ego?

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