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Crônicas de Rodrigo Bender Dorneles

Crônicas de Rodrigo Bender Dorneles

Rodrigo Bender Dorneles é Bacharel em Administração. Ele trabalhou no agronegócio da família, e na CESA, Camaquã (RS). Hoje, trabalha terceirizando o setor de vendas para duas empresas de consultoria. Filosofo de final de semana. Amante de história, sociologia e filosofia.
Iniciou curso de escrita de crônicas em Porto Alegre, cidade onde mora hoje.

O cair das Máscaras

20/07/2021 - 14h32min Rodrigo Bender Dorneles / Foto: Depositphotos / br.depositphotos.com / Direitos Reservados

O ser humano saiu da pré-história e se incorporou como um ser social. Saímos de uma concepção de sociedade biológica como formigas e abelhas, transcendemos as leis naturais de ação e reação, e concebemos uma nova configuração de sociedade. Ou uma nova configuração de organização.

A organização humana criou novas variáveis, as variáveis sociais e, a partir delas, criamos um novo animal, um animal político.

Foi assim que o filósofo Aristóteles conceituou o ser humano. Ele concebeu o termo animal político. O Político vem do termo polis, e polis em Grego são cidades. Ou seja, nos tornamos seres conectados para viver. Se engana o que pensa que o humano vive, na verdade, ele convive.

As abelhas precisam de outras abelhas, as formigas de outras formigas, e o ser humano de outros seres humanos.

Dessa forma, fomos avançando exponencialmente e nos tornando mais complexos em nossas relações. Evoluímos individualmente e socialmente ao mesmo tempo de forma sinérgica, em uma espiral contínua. Nos refinamos em termos de comportamento, atitudes sociais, pensamentos, relacionamentos.

A verdade é que nos tornamos humanos, pois aprendemos a usar máscaras.

Em cada relação que exercemos, em cada local que atuamos, em cada pensamento que transformamos em fala estamos atribuídos de uma caracterização.

Não trago a ideia de máscaras no sentido pejorativo, numa ideia de falsidade ou atribuindo ao sentido físico da palavra, trago uma nova ideia de máscara. Um novo sentido da palavra.

O pensador Carl Gustav Jung, psiquiatra contemporâneo de Freud, introduziu a ideia de Persona. Persona basicamente e simplistamente é o personagem que criamos em cada relação que exercemos.

Eu introduzo a ideia da Máscara.

Nós, como indivíduos, temos uma personalidade própria, mas em determinadas situações somos personas diferentes. Crio a ideia de máscara como a roupa que usamos para agir socialmente. A caracterização que usamos para nos relacionar. Uma máscara.

Logo, uma pessoa tem diferentes máscaras. Nas relações familiares usamos uma máscara, no trabalho usamos uma máscara, no restaurante uma máscara.

Máscara seria o conjunto de expressões faciais, linguagem corporal, pensamentos conscientes e modo como nos comunicamos.

Ou seja, até no mesmo local sendo a mesma persona, por exemplo, podemos agir diferentemente ou usar mais de uma caracterização.

Isso porque o ser humano é um animal mascarado.

Se tornou humano por causa disso, ou melhor se mascarou para se tornar humano.

Imagina se dissemos tudo que queríamos dizer, ou pior, imagina se dissemos tudo que pensamos.

Seria tão engraçado quanto trágico.

Logo, quando conscientes e agindo socialmente pensamos em cada ação, mas ao mesmo tempo temos toda a imensidão do inconsciente agindo simultaneamente.

Essa é a complexidade da sociedade humana, as infinitas conexões tácitas físicas, de contato e de pensamento.

O racional dominando o instinto, o social dominando o indivíduo, as máscaras dominando o agir humano.

A reputação seria o modo de conservar as imagens. O status, o carimbo de veracidade para o visual. A tradição seria o modo de conservar os costumes, organizar a sociedade a perpetuar o agir humano, nos acomodando e dando ideia de continuidade. A revolução seria o modo de os menos favorecidos terem acesso às bonitas máscaras dos mais ricos, a democratização não só do dinheiro, mas o acesso às máscaras que nunca seriam permitidas aos mais pobres.

A etiqueta como o nome já diz é uma ética pequena, seria o texto ou script que nós artistas usamos para performar, em um restaurante, festas e locais mais formais.

A internet e rede social seriam como o teatro das máscaras. Com ela não precisamos mais do improviso do artista para nos expressarmos, comunicarmos e mostrarmos quem nós somos. Apenas precisamos de fotos, de vídeos, de frases.

Na internet trocamos o improviso pelo certeiro, o momento pelo editado, o produto pela propaganda, a roupa pela foto de capa.

A sociedade humana tem toda esta dimensão física, tangível, visual, de aparência, o racional está sempre na frente dominando o inconsciente.

Mas de qualquer forma, temos uma imensidão imersa, somos como icebergs, o social seria o mar na superfície, onde existem outros icebergs. A superfície seria o agir social, porém, submerso nas profundezas está toda a complexidade individual e coletiva. Temos todo um inconsciente coletivo, o convívio na superfície é o modo de jogar o jogo da vida. O jogo da vida é feito na dança das máscaras.

Somos como avatares mascarados.

O aglomerar humano sempre foi sinônimo de mais liberdade, nele somos como mais um no meio de todos, nele podemos relaxar e não nos preocuparmos tanto, nossas caracterizações podem virar caretas, e estamos nem aí. Nosso disfarce se alivia.

Na torcida no estádio de futebol, cantamos mascarados com as cores do time, e desmascarados por dentro, num sentimento de pertencimento a algo maior. Num sentido de vibrar com o mesmo propósito.

Nos shows cantamos embriagados, com máscaras combinando com o ritmo da música, mais leves.

No carnaval, trocamos a ideia de caracterização por uma coisa física e tangível, livres e libertos, como nunca somos, fantasiados por fora para a fantasia interior despertar.

Na igreja somos mais um, mas oramos a um ser perfeito que não precisa se mascarar, e isso nos conforta.

Aglomerar seria como ser político e animal ao mesmo tempo, nos conectamos emocionalmente, e largamos o cansaço e chatice do racional.

Com a pandemia irrisoriamente pelos motivos de saúde pública pelos quais todos sabemos, tivemos que usar amarrado a face o que já usávamos desde de os tempos antigos. Tivemos que materializar o que sempre tivemos.

As relações mudaram, o aglomerar se tornou impossível, o convívio foi ressignificado.

Novas situações surgiram para nos adaptarmos, novas reações surgiram para nos expressarmos. O todo mudou, o social mudou o indivíduo mudou. O cenário do teatro mudou.

Aprendemos a usar novos filtros, aprendemos a reagir diferentemente.

Nos manifestar da maneira correta sem perder a individualidade.

Estamos, por fim, passando pelo momento de transição e vacinação que nos possibilitará a voltar ao normal.

Muitas cidades como Nova York estão vivendo um renascer geral. O Central Park cheio de vida.

Chegará o tempo que no Brasil poderemos aglomerar e deixar as máscaras.

Digo, a máscara física. Pois a ideia de máscara que introduzi nunca nos será tirada.

Que vivamos um despertar, que voltemos a experimentar. Que voltemos a sentir o que nos diferencia dos demais.

Que possamos ser mais verdadeiros, mais originais, mais aceitos independente das caracterizações.

O mundo vai voltar com o cair das máscaras.

Como é o mundo humano com o cair das máscaras?

O humano caminhará para o cair das máscaras?

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