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Crônicas de Rodrigo Bender Dorneles

Crônicas de Rodrigo Bender Dorneles

Rodrigo Bender Dorneles é Bacharel em Administração. Administrador poeta e cronista. Trabalhou no agronegócio da família, e na CESA, Camaquã (RS). Mora atualmente em Porto Alegre, onde seguiu caminho profissional na área comercial.
Trabalha hoje como consultor de negócios em uma empresa de Assessoria tributária.
Filosofo de final de semana. Amante de história, sociologia e filosofia.

Faço arte ao agir no mundo, e sou artista ao me olhar de perto

29/04/2024 - 15h39min Rodrigo Bender / Foto: Depositphotos / Direitos Reservados

Esses tempos estava vendo novamente uma aula do professor Clovis de Barros sobre a Arte em Nietsche. Ou seja, a explicação de Clóvis sobre a teoria do filósofo Nietsche acerca da arte.

Nesse vídeo, o qual publiquei no Facebook tempos atrás, o professor Clovis foi brilhante ao explicar o sujeito ativo e reativo, e como Nietsche criou e entendeu um complexo e inteligível conceito acerca da arte.

Para Nietsche, devemos entender que a arte não se mede pelo resultado. E sim, pela força que está sendo usada pelo artista.

No caso uma força ativa.

O ser humano é um animal que reage. Todo conhecimento humano é formado por nossa reação intelectiva ao ambiente em que estamos. A matemática vem de uma reação humana para explicar as questões e criarmos uma ferramenta. A ciência é uma reação humana para entender o todo. A medicina uma reação humana para entender o corpo humano.

Logo o ser humano reage aos estímulos, reage aos sentidos, reage aos seus raciocínios, reage ao aprendizado. Observa e reage à vida.

O Aprendizado é uma reação da criança frente ao mundo, o conhecimento uma reação humana frente ao universo.

Logo então, a arte é ação. É força ativa. O artista não quer reagir a algo, senão, não é arte.

Como explicado por Clovis no vídeo em questão, surge a pergunta.

O que é mais artístico; uma tela de Monet ou Manet ou um monte de bisnagas caídas no chão em um museu qualquer de arte moderna?

Não sabemos.

O Valor do quadro não é medido pela tinta usada, não é medido pelo gasto com insumos, não é medido pelo tempo que o pintor teve para criá-lo, não é medido pela pintura, não é medido pela experiencia do pintor, não é medido pelo museu em que está.

Então, pelo que é medido? Por ser uma força ativa do artista. Uma pulsão. A materialização da inovação. Algo que não depende do mundo, mas do artista. A arte então é força ativa.

O artista, o autor.

Acerca deste raciocínio complexo, comecei a refletir, e vou expor meus pensamentos.

A Arte é um dos conceitos mais complexos, criados pela espécie humana.

A arte é tida como uma dimensão da filosofia.

Como a própria filosofia e conhecimento, a arte parte do sujeito humano frente ao objeto.

Sendo o objeto o universo observado e o sujeito o intérprete e criador do conceito observável.

Nos perguntamos então: o Ser humano criou a arte? Ou a arte vem da natureza das coisas usando a roupagem humana?

Quando observamos um pássaro a voar e criar seu ninho, isso é arte?

Ou só será arte se materializado em uma tela com tintas , cores, borrões e moldura.

A arte já existe? Ou a arte é o exato oposto? A única forma humana de ser autoral.

A arte faz parte da cultura de povos que ultrapassaram as guerras e viram a dimensão humana de uma outra forma. Foi assim que os gregos nos ensinaram. Foi assim que o mundo mudou com o renascimento humano, de Da Vinci na idade moderna.

Foi assim com a Belle Epoque. Foi assim com a criação do cinema como a sétima arte.

A arte é tão importante quanto a medicina, quanto a engenharia ao Direito.

Pra que gastar com arte?

A arte é uma evolução. Você viveria sem o cinema? sem Netflix? Sem música? Sem livros?

A arte é isso, é muito mais que entretenimento.

A arte é a fuga humana da realidade febril. É a forma humana de fugir da chatice do racional.

Dos problemas de um mundo cada vez mais caótico.

A arte é a forma humana de se embriagar sem beber nada alcoólico.

A arte vem do mundo horizontal, não vertical. A arte não está nem no futuro nem no passado, mas no presente.

A arte acaricia o ser humano preso na gaiola da sociedade e lhe mostra que podes voar.

A arte voa, não rasteja. A arte não tem medo da gravidade. Arte está em um penhasco e se atira para mergulhar no mar. A arte não anda, corre, a arte ultrapassa. Pois o que não é matéria pode ir na velocidade da luz.

A arte não existe ou existe, a arte vem do artista. A arte não é real, é absurda.

A arte não é sozinha, é a apenas o artista tomado pelo vírus da arte.

Então, se arte é isso tudo, o que é o artista ?

O artista materializa a arte. A arte e o artista não se dissociam, pois são partes da mesma coisa.

O artista é a arte no mundo das ideias. O artista não vê a arte, ele a mostra.

O artista é contaminado pelo vírus da arte.

Não é qualquer um que pode ser artista.

O artista estuda para se aperfeiçoar. O artista é como um material de argila a ser moldado.

O artista tem que ter argila, não pode ser artista quem tem cimento.

O dom é o material necessário para qualquer ato.

O artista não percorre a vida se conhecendo, ele percorre se desconhecendo.

Ele não tem mais de uma personalidade, ele tem papéis.

Ele pode não trabalhar com a arte, mas aonde for trabalhar, será mero artista.

O artista não vende, ele interpreta.

Ele não escreve, ele é poeta.

O artista nunca irá se entender, pois nasceu para entender a arte.

O artista pode até se vestir de terno, desde que esteja fantasiado.

O artista bebe, para conversar consigo mesmo.

Se embriaga para entender sua voz poética em outra língua.

O artista fala sozinho, e depois explica para os outros suas conclusões.

Não podemos entender a arte. Não podemos entender o artista.

Dos seus papéis, as máscaras caem.

Da sua própria visão ao desconhecer.

Desconhece-te a ti mesmo.

Eu já me desconheci.

Conheci.

E me desconheci de novo.

Parece que se tento olhar pro mundo, faço arte.

E se olho para mim mesmo, interpreto.

Faço arte ao agir no mundo.

E sou artista ao me olhar de perto.

 Foto: Depositphotos / Direitos Reservados

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